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8 livros de não ficção para quem ama literatura



A ficção é um terreno onde tudo se pode. Universos são criados, mitos construídos, tramas e personagens moldadas por nossa imaginação. Tudo através da potência imagética, às vezes meramente sugestiva, da palavra.


Desde as pinturas rupestres nas paredes das cavernas até os e-books de hoje, o homem sempre foi apaixonado por criar histórias e compartilhá-las com seus semelhantes.


Contudo, é inegável que a realidade sempre foi a principal matéria prima da ficção. Experiências pessoais e o contexto cultural à nossa volta são fortes aliados da imaginação na hora de lapidar os causos que contamos.


Com isso, listei oito obras importantes de não ficção, que dialogam fortemente com a linguagem literária.


Histórias fascinantes que, se não fossem reais, teriam de ser inventadas.


Vamos à lista!


1 - Na Natureza Selvagem (1996), de Jon Krakauer


Após se formar na faculdade, o jovem Chris McCandless sente que sua obrigação com família e sociedade está definitivamente cumprida. Ele deixa tudo para trás e embarca numa viagem para o norte dos EUA, em busca de algum sentido para sua vida. Dirige, pega carona, viaja de trem, trabalha aqui e ali em pequenas fábricas rurais, mora de favor e acampa, convivendo com tipos diferentes e detalhando tudo em seu diário. Dois anos após sua partida, seu corpo é encontrado dentro de um ônibus abandonado no Alasca, vítima de inanição. Quem era Chris? O que o motivou a largar tudo e viver sozinho como um nômade aventureiro, até sua tragédia? Jon Krakauer investiga esse personagem real que abdicou de seus privilégios de classe média para se entregar a uma jornada existencial. A obra teve uma adaptação caprichada para o cinema em 2007, dirigida por Sean Penn, mas arrisco dizer que o livro de Jon Krakauer traz um mergulho ainda mais profundo na odisséia de Chris.


2 - O Sobrevivente (2000), de Aleksander Henryk Laks e Tova Sender


Obra de extrema relevância histórica e particularmente interessante a nós brasileiros. Primeiro por ser o relato dramático e detalhado de um dos últimos sobreviventes de Auschwitz, campo de concentração que mais exterminou judeus sob o jugo nazista, no período do Holocausto. Segundo, que o sobrevivente em questão é o polonês Aleksander Henryk Laks, que, logo após a segunda guerra mundial, radicou-se no Rio de Janeiro e aqui constituiu família. Laks passou os últimos anos de sua vida dando palestras pelo mundo para contar sua trágica experiência e as lições que dela extraiu. O autor veio a falecer em 2015, aos 88 anos. Mas sua contribuição com este livro de memórias permanece viva e pulsante, arrebatadora em todos os sentidos.


3 - Hiroshima (1985), de John Hersey


Li esta reportagem ainda no início da faculdade e percebi o poder do jornalismo literário. Em 1946, John Hersey viajou para a cidade de Hiroshima, no Japão, um ano após a bomba atômica lançada pelos americanos reduzir à metade a população local. A ideia era produzir um relato para a revista The New Yorker, sobre os efeitos da bomba. Mas Hersey ficou tão impactado, que sua pesquisa tornou-se algo muito maior. O livro acompanha o relato de seis sobreviventes, suas experiências no momento da devastação da cidade pelo “clarão silencioso”, e os meses que se seguiram. Quarenta anos depois, Hersey retornou a Hiroshima para escrever o último capítulo dos seis hibakushas – pessoas atingidas pela terrível radiação que se propagou por anos a fio. Uma obra humanitária e pacifista, que alia o rigor da informação à qualidade do texto literário, sobre um período negro da nossa história.


4 - A Sangue Frio (1966), de Truman Capote


Outro exemplo de jornalismo literário que rompeu as barreiras de seu tempo. Foram seis anos de dedicação do autor Truman Capote para concluir esta reportagem investigativa sobre o assassinato da família Clutter em 1959, no Kansas, EUA. A narrativa contrapõe o moralismo, a religiosidade e a meritocracia que caracterizavam o american way of life, a um espectro social marginalizado e obscuro, invisível para o sistema. A imersão de Capote na mente do assassino Perry Smith chocou a sociedade conservadora da época. A Sangue Frio é fruto de um mestre da narrativa sem medo de mergulhar nos porões da psicopatia humana, ao mesmo tempo sensível e brutal.


5 - Colapso (2005), de Jared Diamond


O que os polinésios da Ilha de Páscoa, o Império Maia na América Central e os Vikings medievais na Escandinávia teriam em comum? Todas alcançaram o estágio de civilizações, entraram em colapso e desapareceram, deixando vestígios de suas passagens pelo planeta. Como um grande investigador da história, o autor e biogeógrafo Jared Diamond relata minuciosamente a ascensão e queda desses povos antigos. Mesmo detalhando o aspecto científico das descobertas, o viés literário jamais é deixado de lado. Especulações acerca do comportamento coletivo diante da crise de recursos naturais, assim como das escolhas individuais dos últimos homens e mulheres, ao vislumbrarem o fim próximo, enriquecem a narrativa e alimentam o imaginário de qualquer interessado em antropologia, arqueologia ou história. Uma obra imperdível!

OBS: Foi o livro que inspirou meu romance Rumah; a saga de um povo neolítico nas ilhas do Pacífico Sul.


6 - Z, a cidade perdida (2009), de David Grann


Como Colapso, esta obra também busca inspiração na história dos povos antigos, desta vez nas tribos indígenas do Xingu, na selva amazônica, antes do contato com o homem branco. O livro narra as expedições do explorador inglês Percy Fawcett à região, nas primeiras décadas do século XX. Sua teoria de que o local havia sido o berço de uma rica civilização no passado pré-colombiano jamais foi aceita pela comunidade científica da época. A obsessão levou este trágico protagonista real a desaparecer na Amazônia em 1925 sem deixar rastros, culminando em décadas de especulação midiática e outras expedições em busca de seu paradeiro. Como muitos outros antes dele, o jornalista David Grann refaz o percurso de Fawcett em busca de respostas. Um livro que desperta o Indiana Jones em cada um de nós. Não por acaso, diz-se por aí que Percy Fawcett foi de fato a inspiração para George Lucas criar o personagem do arqueólogo aventureiro. Z, a cidade perdida também virou filme, levado às telas em 2007 pelo cineasta James Gray.


7 - Rota 66 (2003), de Caco Barcellos


Passamos agora à selva de concreto da capital paulista. Anos 1970, três jovens são assassinados por policiais após uma perseguição de carro. Seus carrascos são oficiais da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, unidade da PM conhecida como ROTA. O caso dominou a imprensa na época pelo simples fato dos jovens pertencerem à classe média alta paulistana, ao contrário das vítimas habituais da ROTA: jovens negros ou pardos, moradores da periferia. Considerado um grupo de elite, a ROTA foi gestada ainda na ditadura militar para combater guerrilhas de esquerda. No entanto, mesmo com o arrefecimento do regime, a unidade continuou a operar, desta vez no combate à violência urbana. Caco Barcellos passou anos conduzindo pesquisas e entrevistas para construir este vigoroso livro denúncia que destrincha as práticas da polícia conhecida por proteger e até premiar seus matadores. O resultado é uma das principais reportagens brasileiras sobre criminalidade, abuso de poder e os meandros da corrupção policial. Infelizmente, segue mais atual do que nunca.


8 - Corações Sujos (2000), de Fernando Morais


Em 1945, um grupo de imigrantes japoneses numa colônia em São Paulo ouve pela rádio que o Japão havia reconhecido derrota na segunda guerra mundial. Como era possível? Em mais de 2.600 anos, o exército imperial japonês jamais havia perdido uma guerra. Aquela notícia só poderia ser parte de uma tática mesquinha dos aliados para tentar antecipar a vitória. Uma conspiração mentirosa de um inimigo sem honra, que merecia retaliação, em nome do grande imperador Hiroíto. O resultado disso é o surgimento de uma milícia que passa a punir com a morte os chamados Corações Sujos - japoneses que acreditavam na verdade e queriam apenas levar uma vida comum. O jornalista Fernando Morais esmiúça o esquema da organização que defendia à distância sua pátria de forma absolutamente descabida, atacando seus próprios conterrâneos. Retrato chocante e real do patriotismo fanático em tempos de guerra, a obra foi adaptada para o cinema em 2011, num belíssimo filme de Vicente Amorim.