A máquina desobcessora

Atualizado: 17 de Abr de 2018

Você sempre me pergunta sobre as novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo.

José J. Veiga


Quando Dr. Jandir chegava ao posto de saúde do SUS em Vila Isabel às sete horas da manhã, o suor já começava a porejar por dentro do jaleco. O carro popular zero quilômetro não tinha ar condicionado, o dinheiro não dava. Cada gota de suor lhe fazia lembrar que o que ele ganhava não era suficiente para um com ar e cada gota assinalava que ele não tinha sido capaz de cumprir o sonho de sua mãe. Quando ele entrara para a faculdade de medicina da UFRJ trinta anos atrás, D. Jandira sonhara que seu filho um dia seria rico, ganhando honestamente seu dinheiro salvando vidas, trazendo de volta a saúde do povo. Da última parte do sonho ele podia se orgulhar. Seus pacientes, ou pelo menos os familiares deles, o adoravam. Sua pontualidade, sua paciência, sua capacidade de apaziguar os espíritos confusos e agitados de seus doentes garantiam a admiração das famílias, de alguns pacientes, das enfermeiras e dos chefes. Mas não garantiam mais nada. Ele até tinha conseguido montar algum patrimônio e renda, mas quando a mulher quis o divórcio, o sustento e o custeio da faculdade das filhas o reduziram a um quarto e sala na Tijuca e ao carro popular sem ar condicionado.

Jandir chegava pontualmente às sete horas da manhã para iniciar a jornada. Às onze já tinha atendido vinte e cinco pacientes e pegava o carro para ir ao ambulatório do posto de saúde da prefeitura. Às quinze horas, depois de outros vinte e cinco pacientes e um sanduíche comido em pé, ia então para o consultório no Meyer. No início da carreira, o conselho de um professor o levara a abrir o consultório no subúrbio, expectativa de lucro certo. No vácuo da eficiência da assistência prestada pelo governo à classe média remediada, Jandir calculara grande proveito. Mas o resultado fora engolido pelas empresas de convênio e pela indústria farmacêutica, estes sim os grandes beneficiados pelos descaminhos da saúde do país. Os convênios pagavam aos médicos vinte reais por consulta, embora os pacientes pagassem muito às empresas a cada mês. A saída era ganhar no volume, aumentando a quantidade, diminuindo o tempo de consulta para vinte minutos por paciente – um real por minuto, calculava Jandir – o que não deixava de ser uma eternidade, quando comparada aos seis minutos por paciente nos postos de saúde. No final, em todos os casos, a balança pendia para a quantidade, gorda que suspendia nas alturas a qualidade magrinha.

O primeiro paciente do dia vinha com a mãe e o irmão. Como muitos outros, era um caso de máquina. Apesar do calor da sala de consulta sem ar condicionado, Jandir mantinha a linha no branco impecável do jaleco ao sapato, passando pelo cinto e pela calça de tergal. Os cabelos grisalhos e o bigodinho fino, a caneta e o carimbo compunham o restante da figura. Depois de alguns segundos de silêncio em que o jovem sentado a sua frente fitava o infinito através da nuca de Jandir, o médico perguntou o que estava havendo. Como sempre, não havia nada com ele, minha mãe e meu irmão que cismaram de me trazer aqui. Jandir olhava para a mãe que iniciava o relato; ele anda muito esquisito, doutor, fica parado, fala sozinho, grita de noite, não dorme, deu para juntar lixo que traz da rua debaixo da cama. O doente interrompia; não é nada disso, doutor, é exagero dela, dizia sem conter o riso. O problema, emendava substituindo o riso por uma expressão de medo e a fala apressada pela voz baixa, é aquela máquina que o vizinho colocou na casa dele e que fica mexendo com meus pensamentos.

Mais um caso de máquina, pensava Jandir.

Era tão comum a mesma história que Jandir se espantava cada vez que via na televisão os programas cômicos que mostravam o estereótipo do louco como alguém que pensava ser Napoleão. Em décadas de psiquiatria, Jandir nunca encontrara um paciente que pensasse ser Napoleão. Talvez na França. Mas no Brasil, também não encontrava Duque de Caxias, D. Pedro I ou Fernando Henrique Cardoso. Raramente uma prima da Xuxa ou do Cazuza. Em compensação, as máquinas atormentavam milhões. Os pacientes se sentiam vigiados, comandados, atormentados, abusados por antenas, rádios, televisões, computadores e outros dispositivos eletrônicos. A cada dia, Jandir atendia vários com essas histórias, a televisão fala comigo, o rádio comenta a minha vida, me chama de viado, me manda me matar, a máquina me seguiu até aqui, o senhor deve saber disso também. As famílias só traziam para o psiquiatra quando já tinham levado o paciente na igreja, no exorcismo, na umbanda. Me disseram que ele está tomado por um espírito obscessor, doutor, dizia uma irmã apavorada.

Jandir aprendera a não discutir nem com pacientes, nem com familiares. Prescrevia um Haldol e mandava voltar daqui a um mês. A indústria farmacêutica agradecia, distribuindo canetinhas de brinde nos congressos que Jandir deixara de freqüentar havia muito.

Naquele dia, ao sair do consultório tarde da noite, Jandir mais uma vez se pegou pensando na tal máquina. E se existisse uma máquina? Desta vez perdeu o sono. No dia seguinte, procurou por livros de eletrônica na biblioteca pública.

Seis meses depois, Jandir voltava aos congressos. Conseguira inscrever em alguns de alcance nacional a apresentação de sua teoria sobre a influência de máquinas eletrônicas na loucura. As apresentações provocaram perplexidade. Jandir juntava alterações de ondas cerebrais que todos sabiam serem impulsos elétricos, com a radiação eletromagnética, campos de força gerados pelos condensadores, os diodos, os circuitos cerebrais e os circuitos impressos das placas dos computadores, neurotransmissores sendo liberados pelos neurônios por ação à distância de semicondutores e por ai vai. A apresentação era ilustrada imagens de eletroencefalogramas com mapeamento cerebral e ressonâncias nucleares magnéticas. O suor gotejava por dentro do terno, apesar do ar condicionado potente das salas dos simpósios, uma gota para cada olhar de desprezo dos colegas da platéia. No último congresso, como Jandir se estendia em sua explicação muito além do tempo previsto, a intervenção irônica do presidente da mesa foi o estopim para que ele entrasse numa crise de nervos. E assim, o médico contido de tantos anos saiu da sala carregado, aos berros de indignação contra o obscurantismo da ciência tradicional.

De volta ao posto de saúde, o mesmo calor, os mesmos pacientes, a mesma vida medíocre. Jandir discutiu com o chefe o caso de um paciente atormentado por um palm top. Com a discordância do chefe, nova crise, mais séria desta vez, e Jandir foi internado em uma clínica psiquiátrica. A briga com o superior teve como bônus sua aposentadoria por invalidez permanente devido a motivos de saúde mental. Antes da internação, Jandir já vinha negligenciando a assistência aos conveniados no consultório e os convênios foram informados de que ele realizava experiências com os pacientes. Como aquela de tentar induzir alucinações em um paciente através da exposição às ondas produzidas por um toca CD portátil. A experiência rendeu-lhe um processo no conselho regional de medicina e a perda de sua licença para clinicar. Esta má fase de tantos aborrecimentos terminaria na internação. Curiosamente, a convivência diária na clínica com os pacientes internados serviu-lhe para aperfeiçoar seu plano.

Um ano e seis meses depois, Jandir voltava a Vila Isabel não mais para o posto de saúde, mas para visitar mais um dos seus clientes, comerciantes de lojas de umbanda, de produtos exotéricos e naturais. Vinha apenas fazer a visita de cortesia, pois este era um dos maiores compradores de sua invenção, a máquina desobcessora. Um sucesso de venda nacional, convenientemente divulgada nas vizinhanças dos ambulatórios psiquiátricos e consultórios particulares de todo o país.

Sua criação, devidamente patenteada e registrada como iluminador de rodapé para evitar problemas com a vigilância sanitária, era vendida com o significativo nome de “Iluminador”, mas era conhecida por balconistas e pacientes como a máquina desobscessora. Certa vez, sem que soubessem que ele era o inventor e produtor do artefato, Jandir assistira a uma venda da maravilha eletrônica. Um vendedor exibia a novidade a uma mãe aflita que vinha acompanhada da filha, esta há muito desconectada da razão. O vendedor mostrava que a máquina cabia na palma da mão e era vendida a preços populares, bastava ser conectada à tomada para começar a atuar. Acendia imediatamente uma luzinha vermelha que indicava o ar carregado. Depois de alguns minutos de atuação, a luz vermelha tornava-se verde comprovando que o espírito obscessor estava inativado. Havia novos modelos, como o que tinha uma cobertura de plástico translúcido em forma de Anjo Gabriel e outra um pouco mais cara em que um leve zumbido abafava as vozes das alucinações. Este balconista, como vários outros, garantia conhecer inúmeros casos de sucesso. O boca a boca fazia o resto.

Chegando à loja, Jandir estacionou seu carrão importado zero quilômetro com ar condicionado ligado no máximo. Usava uma roupa mais esportiva, mais colorida, não andava mais de branco. Raspara o bigodinho, pois bigodinho não era coisa de rico. Rico não, milionário.



AUTOR:


Marcelo Santos Cruz é médico psiquiatra, amante da literatura e escritor nas horas vagas.