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O último dia de Horácio (conto)

Atualizado: 3 de Jul de 2019



Horácio tomou banho no dia em que morreu. Não seu banho habitual, em qualquer fonte de praça pública, com transeuntes em volta se alternando entre o riso, a repulsa ou um pomposo desprezo, mas um banho de verdade, com ducha, xampu, sabonete. Esta ação corriqueira, que a maioria cumpre mecanicamente enquanto pensa nos afazeres seguintes, foi para Horácio uma fugaz alegria antes do fim.


Nesse dia, Horácio despertou embrulhado em papelão na calçada da Presidente Vargas. O movimento era intenso e uma fila de gente ansiosa já crescia na porta do banco. Livrou-se do calor sufocante das cobertas, estirou os membros e sentiu a fisgada, como uma ponta afiada de facão. Há alguns anos a dor nas costas deixara de ser insuportável, incomodando-o apenas ao acordar. Tornara-se parte dele, como a crosta de sujeira que o envolvia dos pés à cabeça e a fome inclemente que levava na barriga. Era como se tivesse nascido com ela, e sabia que com ela morreria. Estava certo.


Escovando os dentes, buscou a hora num relógio de rua, mas este mostrava a temperatura. Um camelô imediatamente se interpôs em seu campo de visão para armar sua barraca, impossibilitando-o de ver a hora no relógio. Guardou a escova, bochechou a água morna no copo de plástico e ficou de pé, rosnando com o vendedor.


⸺ Sai pra lá, ô mané!


A réplica não o incomodou, estava acostumado aos insultos. Ainda assim, emitiu seu habitual ruído com a língua para fora, espremida entre os lábios, e escarrou um viscoso catarro amarelo-ovo que pousou no asfalto perto de uma secretária baixinha de minissaia, que apertou o passo com cara de nojo. O camelô o encarou, assustado. Sempre dava certo, posar de louco.


Caramba, quase dez horas! Quase nunca dormia até tão tarde, e se soubesse que este dia seria seu último, talvez tivesse levantado mais cedo para aproveitá-lo. Ou talvez desse na mesma. Não tinha nada de novo para fazer, nada que o entusiasmasse.


Horácio tinha uma magreza de espantar, o rosto cavado e costelas saltando sob a pele de carniça. A barba branca caía à altura do peito e a calvície no topo da cabeça ficava escondida sob uma pelugem que escorria até os ombros como uma vassoura de piaçava. O olhar era sempre o mesmo: impassível, ausente, na pasmaceira que era sua vida.


Tomou a sacola plástica com seus pertences e começou a caminhar. Não se preocupava em desviar das pessoas. Faziam isso por ele, abrindo à sua passagem um largo corredor na calçada, como se reverenciassem um membro ilustre da sociedade. Faltava apenas o tapete vermelho. Horácio ria com a ideia, ignorando o fato de que o real motivo era suas roupas imundas, seu aspecto de indigente, seu cheiro de coisa podre.


Uma das distrações de Horácio era observar os tipos em volta. Camelôs, bicheiros, malandros e pastores evangélicos anunciavam aos berros seus produtos supérfluos, crenças disparatadas e prazeres mundanos. Panfletos de divulgação de consultórios, escritórios, firmas, restaurantes, bares e puteiros passavam de mão em mão até ocupar seu lugar no asfalto.


Homens de terno e gravata cheirando a loção pós-barba sopravam no ar a fumaça pedante de seus cigarros, enquanto jovens executivas de maquiagem pesada e salto alto conferiam telinhas de celular, desdenhosas com seu pedigree em meio a vira-latas.


Horácio desconhecia esse mundo. Entre tantas formigas operárias, ele era um ser invisível, solenemente ignorado. Orgulhava-se de sua ociosidade e falta de propósito. Não precisava de carro, geladeira, fogão, ar condicionado, TV de plasma, aifone. Vivia até mesmo sem uma cama confortável, apesar da falta que lhe fazia. Tudo o que tinha levava consigo: a roupa do corpo, a medalhinha de São Judas Tadeu, símbolo de uma vida passada que desvanecera da memória debilitada pelo álcool, o canivete que carregava como proteção desde que um grupo de jovens imbecis pusera fogo num índio dormindo na rua (vira na TV), e um velho radinho de pilha, atual passatempo para afastar os espasmos pela falta de pinga.


Fuçou latas de lixo até achar uma maçã mordida e meio sanduíche de atum, que empurrou goela abaixo. O ronco na barriga deu uma trégua e ele passou a admirar a vitrine de uma loja de bebidas, as garrafas de tamanhos variados, os logotipos coloridos. Sentiu a saliva escorrer pelos cantos de sua boca, como um cão raivoso. Revirou os bolsos; nem um tostão. Sua visão começava a anuviar, seu corpo a tremer, seus dentes a trincar, e Horácio saiu rapidamente dali.


No Largo da Carioca, pedestres se aglomeravam em torno de um homem fantasiado de Mister M, que incitava um ar de mistério, enquanto outro de peruca branca e topete descomunal narrava com a voz grave do Cid Moreira.


­⸺ Mister M agora vai queimar uma pessoa viva...


O mágico esticou os braços à frente, na direção de um sujeito negro como o céu da noite, que assistia ao espetáculo com um sorriso branco de arder na vista.


⸺ Ah Mister M... mágico filha da puta...


A gargalhada de Horácio afugentou algumas pessoas e logo a maioria dispersou. Cid e Mister M lançaram-lhe um olhar antipático antes de irem se apresentar em outro local.


Caminhou até a Cinelândia e sentou-se num banco em frente a pombos que brigavam por grãos de milho sobre um mosaico de pedras portuguesas. Foi então que viu Marinalva. Vestido caseiro, cabelos malcuidados presos num coque, com alguns fios brancos ouriçados, como se tivesse levado um choque. Ela aproximou-se com seu sorriso enternecido, levou as mãos à cintura e tombou a cabeça para o lado como uma tia do jardim de infância se dirigindo a uma criança desmiolada.


⸺ Há quanto tempo que não te via, Horácio!


Ele grunhiu alguma coisa, como um porco.


⸺ Quer tomar um banho?


Chacoalhou a cabeça, aceitando o convite. Marinalva fez um sinal para que a seguisse, mas ele sabia o caminho.


Quando entraram no apartamento, Marinalva bateu a porta com força, jogou o molho de chaves sobre a mesa da sala e foi à cozinha. Horácio paralisou. Uma jovem de vinte e poucos anos estava sentada de cabeça baixa no sofá velho, mordendo os lábios e segurando apreensivamente uma imagem de São Judas Tadeu. A mesma que ele levava presa ao pescoço.


Marinalva trouxe um copo d´água a Horácio, que bebeu num só fôlego, e depois o guiou até o banheiro.


⸺ A toalha tá aqui. Pode vestir essa roupa... Ali tem xampu, sabonete... se lava direitinho porque tu tá mais fedido que o caminhão de lixo, Horácio.


O carinho de Marinalva o enrubescia. Era uma mulher rechonchuda, os seios lânguidos como geleia. Horácio pensou que algum dia poderiam ter sido duros, lisos, agradáveis ao olhar e ao toque. O tempo era especialmente impiedoso com as mulheres, mas a verdade é que ele tampouco gostava de imaginar-se o que de fato era: um velho asqueroso, raquítico, derrotado pela vida.


Despiu-se, evitando o espelho, e se rendeu ao banho quente, o vapor envolvendo seu corpo em letargia. Não queria que terminasse e estava quase dormindo, sentado sob o chuveiro, quando Marinalva bateu com força na porta e decretou o fim de sua paz.


⸺ Tudo bem aí, Horácio?


Saiu e se enxugou. Sentia-se leve, quase levitando, sem a camada espessa de sujeira que antes o envolvia feito uma armadura. Vestiu as roupas novas, uma calça de pijama que amarrava na cintura, uma camiseta velha e outra de botão por cima. Penteou para trás os cabelos úmidos e voltou à sala, sentindo-se um novo homem.


A menina estranha do sofá estava agora sentada à mesa da sala ao lado de Marinalva, ainda mais angustiada do que antes.


⸺ Sente aqui, Horácio.


Ele pigarreou e olhou na direção da saída. Depois do banho, Marinalva geralmente dava-lhe um pão francês, uma broa de milho ou goiabada, e ele seguia seu rumo. Agora, por algum motivo obscuro, era chamado para uma conversa na presença de uma jovem que sequer conhecia.


⸺ Essa moçinha aqui veio de longe pra te ver. O nome dela é Lurdes.


A jovem enfim ergueu a cabeça, o olhar desamparado num rosto intumescido de lágrimas. Horácio manteve o semblante. Não a reconheceu. Tampouco lhe importava quem era e porque estava interessada nele. Coisa boa não podia ser. Impossível.


⸺ Venha, sente aqui, ande!


O comando impaciente de Marinalva enfim venceu sua desconfiança e ele tomou assento, por respeito à anfitriã.


⸺ Nós nos conhecemos há bastante tempo né, meu amigo? Eu sempre quis saber quem você era, um pouco sobre seu passado... então um dia tirei fotos suas sentado no banco da praça, algumas bem de perto, com o zoom da máquina. Aí tive a ideia de criar seu perfil no Facebook. Não sabia seu sobrenome, então botei só Horácio... mas Horácio, meu filho, nunca podia imaginar o que aconteceu... você foi reconhecido!


Aquelas palavras saíam da boca de Marinalva para cair num terreno baldio em sua mente. Zum, feissibuqui ⸺ que diabos era isso? Por que não podia ser como das outras vezes: tomar seu banho, ganhar algo de comer e voltar pras ruas? Não queria escutar aquilo e estava quase se levantando para ir embora quando subitamente se viu preso à cadeira. Novas palavras, estas sim repletas de significado, o atingiram como um soco no estômago: filha, tragédia, Santo Antônio do Pinhal, viajou, ver, pai.


O passado, que tanto lhe custara esquecer, voltou numa enxurrada de imagens: uma cidadezinha do interior, um emprego de balcão, um apartamento humilde, um berço. Os bares, os porres, as brigas em casa. Uma faca em sua mão, a esposa caída no chão da sala com uma poça de sangue em volta, e a dor lancinante da facada em suas próprias costas, enfiada por uma menina sardenta de tranças: Lurdinha, sua filha, a jovem ali presente.


Saiu em disparada pelo corredor e desceu as escadas pulando os degraus, a tempo de ouvir os gritos ecoando pelo mármore do edifício velho.


⸺ Horácio!

⸺ Pai!

⸺ Pelo amor de Deus!


Ganhou a calçada, o formigueiro humano, o som enervante das buzinas. Avistou um boteco do outro lado da rua e correu rumo à salvação. Queria se esquecer de tudo e conhecia o remédio para isso. O infalível remédio. Ia esquecer, tinha que esquecer... Nem se dera conta de que não tinha um centavo no bolso quando veio o impacto com o ônibus, seu corpo arremessado para o lado entre micropartículas de vidro e metal.


Caiu e ficou, estatelado no asfalto.


A perspectiva do descanso eterno anestesiava a dor. Não teria que se lembrar, nunca mais. Sua última visão foi de rostos curiosos e assustados aglomerando-se ao redor, emoldurados pelo céu azul. Aqueles que tiveram coragem de encarar a vítima nos olhos surpreenderam-se com o leve sorriso no rosto dilacerado do mendigo de banho tomado.






AUTOR:


Bruno Flores é leitor assíduo, cinéfilo e profissional de marketing. Adora viajar pelo mundo, literalmente e pelas páginas dos livros. É autor do romance de aventura Rumah, e fundador da Espaço Livre Marketing Literário.