Jacaré (conto)


Jacaré se agachou à sombra tímida do arbusto. Tomou uns goles do cantil e secou o suor que pingava das sobrancelhas. Com seu olhar sempre tristonho, sempre franzido, encarou o caminho que tinha pela frente, aquela imensa savana que desembocava no nada. O cabelo, uma volumosa juba crespa, crescia para o alto como uma planta robusta e seca atraída pela luz. A barba parecia uma extensão dos cabelos, escondendo os lábios e formando uma auréola negra em torno da cabeça.


As únicas certezas de Jacaré eram o sol e a fome. Dizia que o astro iluminava os caminhos, para o bem ou para o mal. Podia clarear as idéias ou obscurecer o raciocínio, fortalecer os laços entre conterrâneos e assim a luta por justiça, ou aquecer o cocuruto a tal ponto, que demonizava até mesmo o mais inocente campesino. Por isso haviam chegado até ali. Povo dividido, o lado de cá e o lado de lá, a mancha negra de uma disputa ancestral contaminando a tudo e a todos, como um vazamento de óleo se alastrando pelo oceano seco da savana.


Caminhava vestindo o colete feito do metal mais resistente da região, usado na construção de pontes e fortes. Diziam ser à prova de balas, mas ele próprio nunca o havia testado. Começou a usá-lo após o quinto tiro levado, que quase o desencarnou. O balaço entrou rente ao coração e saiu pela lombar. Tiro de carabina, vindo do alto, enquanto atravessava o vale. Atirador habilidoso. Preciso na mira.


O episódio rendeu fama: o homem da pele de jacaré. Disseram do sucedido os maiores desatinos: que Deus o havia protegido, que cada homem tinha um destino e o seu era tornar-se o herói da resistência, que por isso não seria um balaço qualquer de um fascista de baixa patente que o tiraria de circulação. Ficou conhecido por todo o deserto do sudeste.

Mas Jacaré não era afeito a crenças disparatadas, muito menos a ilusões de imortalidade. Sabendo que dificilmente resistiria a uma sexta investida inimiga, passou a usar o colete, por mais penoso que fosse carregar aquela carcaça de metal pela aridez.


Jacaré fitou o sol com a mão rente à testa: duas horas da tarde. Invasores solitários vinham passando por ali nesse horário, rumo aos grupos de infantaria quem se reorganizavam no norte.


Não custava tentar.


Subiu o morro mais próximo, ainda negro e careca por conta de uma queimada recente. Rastilhos de fumaça crepitavam lá e cá, desaparecendo rumo ao céu azulado. Jacaré acendeu seu cigarro de palha numa gramínea ainda em brasa.


No cume, avistou o arbusto mais próximo da encosta, com melhor vista para a planície, e tomou posição. Preparou o rifle, os binóculos, o cantil, comeu uma maçã e esperou. Os invasores eram tolos. Vestiam todos a mesma farda azul, com uma estrela amarela no peito que reluzia à distância, fácil de avistar. Jacaré contabilizava cinquenta e seis mortes, cada uma representada por um risco de facão na coronha de seu rifle.


Quem sabe aquele dia ainda não passaria em branco.


Deitado de bruços com o rifle posicionado sobre o suporte ao seu lado, Jacaré tentava se aconchegar na minguada sombra. Observou com os binóculos os quatro cantos da planície, sem sinal de vida a não ser por uma ou outra raposa faminta, deslocando-se anêmica pela imensidão. Seus olhos se fechavam com aquele marasmo, apesar das gotas de suor que lhe escorriam pelo corpo e atiçavam os nervos.


Foi então que uma nuvem surgiu como por milagre e bloqueou o sol, sombreando tudo ao alcance da vista. Uma brisa vinda do oeste trouxe a Jacaré uma súbita e inexplicável paz, refrescando-o como o único banho de mar tomado na infância.


Despertou. O rosto colado às pedrinhas que sulcavam sua pele de réptil. Virou-se de barriga para cima e avistou um urubu planando num voo circular rente ao sol, que agora exibia seu esplendor alaranjado.


Cinco da tarde.


Tomou um gole do cantil e voltou-se para a planície, pegando rapidamente os binóculos para confirmar a visão. Sua sorte não falhava. Lá estava, sentado sob a única árvore desfolhada da savana, mais um tolo que entraria para seu saldo. Mais um risco em seu rifle.

Jacaré posicionou a arma à sua frente e afinou a mira de luneta. O homem bebia do cantil e devorava o que parecia ser um guisado de porco. Em seguida tirou o quepe, revelando os cabelos amarelados, a pele alva marcada pelo sol, pegou um livreto no bolso da farda e começou a ler.


Jacaré não disparou. Um calafrio percorreu sua espinha e o dedo tremeu no contato com o gatilho. Só podia estar com verme. Via sintomas parecidos em alguns doentes na aldeia, mas ele próprio nunca havia sentido aquele mal estar que rendia as funções corporais à lógica arbitrária da natureza. Não conseguia, literalmente, apertar o gatilho, seu dedo não obedecia à sua vontade. Tentava exaustivamente, mas os efeitos pareciam piorar a cada nova investida: um pigarro inesperado, um enjoo, um anuviar da visão.


Tirou com brutalidade o rifle do suporte, levantou-se e começou a descida ao encontro do inimigo. Derrapou pela encosta queimada, levantando uma nuvem negra de poeira que atiçou uma cascavel. Mal sentiu a picada. Andou esbaforido até a árvore, arrastando a perna dormente e inchada, imaginando ainda se tratar de um sintoma de origem desconhecida. O fascista estava na mesma posição, entretido com o livro de bolso. Jacaré engatilhou a arma e só então o inimigo ergueu a cabeça e o viu. Não manifestou surpresa, medo, susto ou tampouco animosidade. Apenas o encarou, com suas pupilas dilatadas, conscientes do fim.

Jacaré cerrou os olhos e um estampido seco ecoou pela planície, afugentando os tatus que saíam de suas tocas para encarar a noite no deserto.





AUTOR:


Bruno Flores é jornalista, escritor e roteirista. Adora viajar pelo mundo, literalmente e pelas páginas dos livros.

É autor do romance de aventura Rumah, e fundador do Espaço Livre Marketing Literário.